Leandro Macedo

             CARTA A MEU FILHO LEANDRO

 

 

Eu procurei durante toda minha vida a palavra mais bonita que eu poderia dizer. Sempre que pergunta a alguém qual seria ela, a resposta é invariavelmente AMOR. Amor tem tantos valores, o da mãe, do pai, do filho, amor ao próximo, o amor a Deus, mas ele pode ter tantos valores diferentes para cada um. Claro é assim que eu imagino que seja. Mas mesmo dissecando a palavra com todas as suas variáveis, nunca consegui concluir que ela era a mais bela. Passei anos procurando por ela. Ela teria que ser uma palavra completa, plena, sem dúvidas, sem mistérios ou nuances, teria que ter um valor igual para todos. Mas eu nunca achei que Amor preenchia os meus valores. Quando se fala em Amor, a gente sempre pensa em retorno, qualquer que seja, pensa-se num motivo qualquer para ele estar na sua vida.

 

Vivi uma vida intensa, plena, feliz, com muitos momentos difíceis e infelizes. Poderia falar sobre eles, mas não há quem não os tenha tido. Todos eles seriam simples demais (não para mim), singulares demais e provavelmente não seriam interessantes para serem contados.

 

Ao pensar na minha vida toda, ao pensar nas minhas realizações , ou não, nas minhas frustrações, e nos pecados que posso ter cometido ou quando o fiz omitindo-me , penso e amadureço com a certeza de que a palavra  mais bonita que eu já disse na minha vida é a palavra FILHO. Gosto de dizer "meu filho". Prefiro chamá-lo por filho do que pelo seu nome que é um nome bonito. Mas seu nome é comum, existem centenas iguais, mas o "meu filho" é único, é o meu filho. Sou sua mãe, sou sua única mãe. Eles sempre foram especiais para nós. Nunca ninguém os amará como nós os amamos. Temos, eu e o meu marido, muito orgulho do que conseguimos. Sabemos que os transformamos em Homens dignos, honestos, educados e outras coisas mais que são tão simples ou até muito comuns. Mas toda vez que os olhamos,  temos orgulho de dizer é o MEU FILHO.

 

 

Ter um filho significa tanta coisa. Acho que todas elas são especiais. Gosto de pensar no orgulho que temos quando o vemos fazendo o que acredita, tentando ser cada dia mais uma pessoa melhor. Tentar ser uma pessoa melhor todos os dias não é fácil, é uma batalha. Temos que ser inclusive humildes para reconhecer que precisamos ser melhores. Há dias que fazemos coisas que não nos orgulhamos muito, e precisamos melhorar.

 

Temos dois filhos cada um com suas características especiais, defeitos especiais e sempre serão especiais. O mais velho está comigo todos os dias, e eu o vejo crescer, vejo suas mudanças, ainda verei muitas coisas que não sei o que serão. Ainda teremos dele muitas surpresas, muitas alegrias, dividiremos muitas frustrações, muitas realizações.

 

O outro já não está comigo desde 20 de julho de 2002. Deus o levou aos 19 anos, na sua fase mais esfuziante. Penso todos os dias no que Deus me tirou. Ele não tirou só o meu filho, ele me tirou uma incerteza profunda do futuro, uma insegurança, me fez sentir tão impotente diante da vida, que em muitos momentos, já passados, gostaria de ter morrido junto. Acho que todas as pessoas que perdem um filho perdem um referencial. O filho é um certeza de futuro, quando ele não mais existe, você percebe claramente que você não controla a sua vida.

Ele foi um presentinho muito especial, me foi dado no dia 8 de maio de 1983. Nasceu num domingo do DIA DAS MÃES. Eu não poderia ter ganhado um presente maior do que este

 

Quando ele morreu sofremos tanto que pensamos inúmeras vezes, desejamos constantemente nunca tê-lo tido. O conhecimento desta perda é tão forte que dói no mais profundo da alma.

 

Acho que todos nós já vimos um filme, em que um monstro horrível saindo de um pesadelo qualquer arranca o coração de alguém e o espreme entre as mãos. É essa a demonstração mais razoável que consigo dar para que alguém possa imaginar como dói.

 

Você sente que perdeu a melhor coisa que tem na vida. Sem o outro filho que é também uma vítima desta dor, essa dor não poderia ser superada.

 

Não consigo imaginar a dor de um pai ou de uma mãe que tenha perdido seu filho, seu único filho.

 

Tenho certeza que ela é muito maior que a minha. É uma vida sem futuro, sem continuação, sem esperança.

 

Quando lembro do meu filho que se foi, vou lhe dar uma cara e lhe darei seu nome LEANDRO, sinto falta de tantas coisas. Sinto falta da sua alegria, o seu jeito meigo e carinhoso. Do jeito que me abraçava, de seus beijos dados com a barba por fazer, os pelos ainda poucos e me roçando o rosto. Me lembro de seu tamanho, grande e com um coração maior ainda. Tinha tanto medo de magoar pessoas, sempre gentil e educado. Lembro de seu rosto cheio e um sorriso eterno nos lábios, sempre de bem com a vida.

 

Sinto falta de tudo o que ele deixou. Mas a minha maior saudade, é do que ele não completou, da faculdade que não terminou, do baile de formatura que não virá, da noiva que não terá, dos netos que não terei. Sinto falta de seus cabelos brancos que não verei, de suas rugas que não virão. Dos novos amigos que não mais dividiremos, das cobranças que não virão. Sinto tanta falta do que não acontecerá, penso tanto nas alegrias que viveríamos juntos, do ombro amigo que não mais terei, de um dente que poderia cariar. Isto seria até engraçado porque ele não tinha nenhum. Fico imaginando como seriam seus filhos. Altos? Provavelmente. Alegres? Certamente. Amados? Muitos amados.

 

Penso todos os dias que ele não envelhecerá. Terá sempre 19 anos. Penso que envelhecer é uma dádiva tão grande, sei que ele gostaria de estar conosco dividindo o amor que sempre dividimos em família. Nunca, nem um único dia ele deixou de ser abraçado e beijado, por mim ou pelo pai. O pai sempre que o recebia, seja lá o que tivesse fazendo sempre se levantava com uma deferência especial e o abraçava e o chamava "oi amado filho". Nunca conheci alguém que fizesse isto todos os dias. Era recebido sempre como se estivesse chegando de uma longa viagem. Pensamos sempre, qualquer um de nós, que teremos nossos filhos juntos na nossa velhice. A velhice não parece hoje uma coisa tão feliz. Acredito que de todos os sonhos que alguém pode ter, este se não for realizado será certamente o mais doído.

 

Há um ano e meio já passado, a dor não diminui, a saudade aumenta e a ausência parece cada vez maior.

 

Na verdade sempre procurei uma figura que pudesse representar o significado desta perda, uma figura real. Sabe? Quando a gente vê um amigo que perde um filho a gente sempre se sente infeliz. Naturalmente a gente se imagina no lugar dele, e pensamos que entendemos o que ele está passando. Já me aconteceu algumas vezes, e eu na minha santa ignorância achava que sabia o tamanho deste sofrimento.

 

MENTIRA. Nada se parece com quando nos acontece.

 

Imagine: um carro que vai fazer uma longa viagem. Digamos de Fortaleza a Porto Alegre, aí, no começo da viagem um pneu se estraga e estoura e a sua roda se deforma toda. Mas você tem que continuar a viagem daquele jeito. Não existe nenhum borracheiro no caminho e você tem que chegar é uma viagem sem fim, não lhe parece? Mas vamos continuar, só que temos só três rodas, olha que o barulho é terrível, os buracos são muitos, e será assim até o fim da viagem e nem sabemos quando ela irá terminar.

 

Não existe mais nada na minha vida que parece ter importância, sabe aqueles sapatos lindos que todas nós gostaríamos de comprar? Parece supérfluo. Sabe aquela roupa que quando você vestia e ele dizia que você estava bonita? Parece tão sem importância. Aqueles livros que ficavam pelo meio do escritório, e que você vivia dizendo para serem guardados, hoje estão lá, e eu já não me importo mais.

 

Os sapatos no quarto do Marcelo, que pedia para guardar, já não peço mais.

 

Sabe aquela comida especial que a gente faz aos domingos e que ele adorava? Ele adiava sempre seus compromissos para depois do almoço porque adorava o que eu fazia. Eles já não parecem tão apetitosos.

 

Sabe aquele cabelo arrepiado, que ele cortava com a máquina 2? Porque eu não deixava ele usar a 0. Sinto falta de passar a mão na sua cabeça que mais parecia um bicho de pelúcia. O cabelo era tão curto que algumas vezes eu "via" o seu cérebro. O irmão brincava dizendo que não, pois ele não tinha um.

 

O abraço que ele me dava me aninhava em seu corpo alto. Com uma freqüência muito grande eu subia um degrau na escada para ficar a sua altura, mas nem assim eu conseguia. Era um homem de corpo e um coração de criança, que estava começando a descobrir a vida, e as perspectivas que ele teria. Estava percebendo, e tinha muita consciência de que ele poderia ser o homem que gostaríamos que fosse.

 

Ele descobriu que poderia ser o homem que gostaria de ser e que dependia dele se tornar alguém. Era tão feliz. Não me lembro de ter conhecido alguém que fosse mais feliz que ele. Ele se sentia tão feliz, tão realizado que no dia 19 de julho, véspera do acidente, conversamos muito tempo, (sempre fazíamos isto) e ele me disse o que nunca ouvi de outra pessoa, que ele se sentia completamente feliz. Ele estava realizado, descobriu que podia, e poderia, ser o que quisesse. Tem pessoas que nunca disseram isto. Passaram pela vida, ou passaram a vida sem nunca ter dito isto. Não posso entender porque no seu momento mais feliz, na sua melhor fase Deus o tirou de nós. Não posso entender por mais que tente, por mais que acredite em um reencontro não posso entender. Acho que Deus acordou naquele dia com um tremendo mau humor.

 

Todos os dias quando me olho no espelho, e não olho mais nos meus olhos, porque quando faço isso percebo que ele não está mais comigo, eu sinto uma pena tão grande de mim, do que perdi. Eu sinto tanta pena do que não acontecerá. Olho para meu marido que o amava como eu, e sinto muita pena dele também. O irmão que tinha nele seu melhor amigo sente tenta falta, e até hoje também não se refez. Tenho tanta pena por que ele que foi submetido a uma dor tão grande, tão jovem. Sei que vai carregar esta saudade, espero, por muito mais tempo que nós.

 

O meu mundo parece que foi coberto por uma névoa. A felicidade hoje é feita de momentos muito menores, porque até quando nos sentimos felizes, nos sentimos tristes por não podermos dividir com ele tudo isto. Olho para a cadeira da copa que ele sempre sentava, e está sempre vazia não há esperança, apenas a certeza de que não voltará.

 

O nosso amor por eles era dito todos os dias. Nunca, nem uma única vez, quando os proibimos de fazer algo, nós dizíamos a eles que não queríamos porque tínhamos medo de perdê-los. E se achávamos que haveria um risco, por menor que fosse nós estávamos juntos.

 

Eu busquei, ele e os amigos, em todas as madrugadas, os pais não gostavam de buscar, e eu sempre sentia um prazer enorme em fazê-lo. Parece que eu adivinhava que estaria pouco tempo conosco, e eu era sempre a primeira a saber de tudo. Gostava de levar na escola e de buscar, porque passávamos um tempo grande conversando ( isto é quando ele não dormia).

 

Ainda sinto o seu cheiro, sinto a textura da sua pele, sinto o carinho de seus beijos. Deus nos deu um prêmio, e que pena, por tão pouco tempo.

 

Quando se perde um filho, você perde uma parte da sua alma. Ele sempre é um pouco de você. Você dá a eles sempre o que pensa ser melhor. Ele leva uma parte do seu espírito, que hoje é um pouco mais pobre, mais vazio, menor, e com certeza menos feliz.

 

Todos os dias, desde este dia fatídico, penso nele com tanta saudade, e me lembro dos momentos que vivi naquele dia, e sinto a mesma dor. É claro que eu procuro evitá-los, mas de vez em quando ele aparecesse, e o sinto com a mesma intensidade.

 

Ainda bem que eu levei a sua vitamina na cama sempre que ele ia levantar cedo. Ainda bem, que eu disse que o amava muito. Disse a ele que eu tinha muito orgulho de ser sua mão, e que qualquer uma teria orgulho disso. Os amigos sabem que estou dizendo a verdade.

 

Quanta falta você me faz meu filho.

 

Nós conseguimos ainda ser uma família. Conseguimos fazer amigos maravilhosos, que nos deram abraços como se quisessem carregar um pouco desta cruz. Não poderíamos superar esta dor sem seus abraços, sem os ombros que nos foram oferecidos para nos consolar, sem as palavras encorajadoras e carinhosas. Somos muito gratos pela paciência que tiveram conosco

 

Eu te amarei profundamente... eternamente...

 

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