Leandro Macedo

 

Conhecem a história de que existem todos os fatores para não acontecer, mas acontece ?

Na semana anterior ao acidente, Leandro pediu para ir até Caldas Novas para assistir a um show com os amigos. Vieram as perguntas clássicas,como: quando , com quem , onde vão ficar, como vão etc. etc.

Ele iria com mais três amigos. Quando pediu para ir de carro com amigos naturalmente negamos... sabia que jamais deixaríamos que ele viajasse com um jovem dirigindo, a condição para que ele fosse era que tinha que ser, obrigatoriamente, de ônibus.

Ele aceitou claro, pois sabia que de outra forma não iria. Lembro perfeitamente do momento em que pediu dinheiro para comprar a passagem, disse que iria com o Ítalo (cujo pai também não aceitou de forma alguma a ida de carro) à rodoviária para comprar a passagem.

No sábado ele me acordou para me dar um beijo antes de viajar.

Lembro bem da sensação de seu último beijo , ele agachou todo desajeitado (tinha quase 1,90 m) me beijou e me deu um abraço. Sempre me orgulhei de saber sentir realmente todo o amor que existe em um abraço de meus filhos. Acho estranhíssimo aquele adesivo "Já abraçou seu filho hoje ?" ... Como alguém pode encontrar com o filho pela manhã e não lhe dar um abraço e um beijo ? E quando chega da aula ? E quando vai sair ? E quando vai dormir ?

Me disseram que existem pais que perdem essas oportunidades. Já pensou se eu tivesse perdido alguma ? Leandro ganhou uma quantidade muito maior de abraços e beijos do que tinha de dias vividos, muito mais.

Ângela disse que o levaria até a rodoviária, ele disse "não mãe, o pai do Ítalo vai nos deixar". O Ítalo falou ao pai dele que nós é que os levaríamos. Jamais imaginaríamos que pudessem pregar uma peça dessa em nós.

Eles se encontraram com os amigos e seguiram de carro. Em um Troller camper...um Troller ...um Troller de fibra de vidro...

No meio do caminho o carro capotou, despedaçou todo. Leandro foi atirado no asfalto e bateu com a parte de trás da cabeça.

Ítalo ficou seriamente ferido, os pais passaram por um suplício durante semanas enquanto ele estava na UTI.

Um Troller, um Troller usado.

Quando recebi o boletim policial vi que o amigo que dirigia tinha 3 (três) meses de carteira... não precisam reler , vou repetir bem alto ... TINHA 3 (TRÊS) MESES DE CARTEIRA DE HABILITAÇÃO !!!

Como pode ???? Jamais nossos filhos andaram sem cinto de segurança, não dirigiam sem que estivéssemos ao lado deles durante semanas após tirarem a carteira. Antes de se aventurarem no centro da cidade, passou-se muito tempo.

Quando iam para as festas preferíamos acordar para ir pegá-los do que deixar que outros pais os pegassem porque poderiam estar com sono. Confesso que , em 90 % das vezes, foi a Ângela quem pegou, ela também ficava temerosa de eu estar sonolento.

A segurança de nossos filhos sempre esteve acima de qualquer coisa.

Como pode um pai e uma mãe, deixar um filho de 18 anos fazer uma viagem em um Troller com três meses de carteira ?

São irresponsáveis. Não consigo pensar em uma palavra mais forte do que irresponsáveis, porque senão eu a usaria.

Eles não tem idéia do sofrimento que nos causaram. Aliás será que ainda lembram do que fizeram ?

É um pedaço arrancado dos nossos corações, é chorar dia após dia, é ter vontade de não acordar, é uma angústia sem fim... como pode? Não ver meu filho de novo ? Não acompanhar sua carreira ? Não ver nossos netos ?

Li em algum lugar que quando perdemos nossos pais , perdemos um passado, quando perdemos nossos filhos, perdemos o futuro.

Pois é. Arrancaram um pedaço de nosso futuro. E como era querido esse pedaço.

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